terça-feira, 17 de junho de 2008

Conto de Mistério

Conto de mistério

Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível a qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à guisa de senha. Parou debaixo do poste, acendeu um cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.

Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou:

Siga-me! - foi a ordem dada com voz cava. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal-iluminado e ele - a uma distância de uns dez a doze passos - entrou também.

Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente.

Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de agricultor parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou - porém - quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: "É este".

O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro. Um aceno de cabeça foi a resposta. Enfiou a mão no bolso, tirou um bolo de notas e entregou ao parceiro. Depois virou-se para sair. O que entrara com ele disse que ficaria ali.

Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:

- Julieta! Ó Julieta... consegui.

A mulher veio lá de dentro euxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo. Ali estava: um quilo de feijão.

Sérgio Porto - Stanislaw Ponte Preta

Palmas Mudas

Palmas Mudas


Capítulo 1


Certa vez, no Rio de Janeiro, estavam realizando um festival de talentos. Aos poucos a notícia do festival se espalhou pela cidade e várias bandas se inscreveram. Primeiramente todas as bandas passariam por um processo de seleção bem rígido.

Após esse teste, foram escolhidas seis bandas que por incrível que pareça eram de roque.

A animação era geral e tudo estava sendo devidamente planejado para que na hora H nada desse errado.

O tempo foi se passando e finalmente o dia havia chegado. Muitos seguranças foram contratados, os ingressos haviam esgotado e o público era só felicidade. A cada banda, o grau de animação aumentava pois realmente todos eram bons no que faziam. O ansioso público esperava a última banda, pois haviam rumores de que seria a melhor de todo o festival. Até a mídia em peso compareceria a última apresentação, sem falar que a popularidade da banda que aumentaria.

Enfim a hora havia chegado e a última banda havia sido chamada ao palco, mas uma avassaladora notícia atingiu o público, e mais ainda toda a cidade, como uma flechada: o vocalista estava morto.


Capítulo 2


Neste momento toda a cidade ficou paralizada com a notícia e logo a polícia chegou ao local. O corpo do vocalista foi encontrado dentro de um dos improvisados camarins totalmente degolado e cortado, como se faz com uma galinha.

_ Morreu faz quanto tempo?- perguntou Raul.

_ Pelo que os peritos disseram, provavelmente em torno de quatro horas atrás- informou Carlos.

_ Isso dá mais ou menos entre dez e onze horas da noite anterior.

_ Pelo jeito é.

Como primeira providência, convocaram todas as bandas participantes do festival para recolher os depoimentos. Eram cinco bandas sem contar com a que sofreu um “desfalque”. Raul foi designado para o caso. Ele era um dos melhores investigadores de toda a América do Sul.

A primeira banda a ser interrogada era composta por uma vocalista, um baterista e um guitarrista. A vocalista se chamava Luana, o baterista se chamava Leon e o guitarrista se chamava Isack.

_ O que vocês estavam fazendo antes de se apresentarem?- Raul foi direto ao ponto.

_ Eu e Leon estávamos afinando os instrumentos e fazendo os últimos preparativos- disse Isack.

_ E eu estava “aquecendo” a voz para o show- e ainda Luana completou- Pode perguntar para o Saulo da outra banda.

_ Isso foi mais ou menos que horas?

_ Entre dez e onze horas- responderam.

_ Vocês têm alguma suspeita?

_ Já que você tocou no assunto, eu ouvi boatos de que a banda Scorpions não ia muito com a cara da outra- falou Luana.

_ Você desconfia deles?

_ Ah não, deve ser só fofoca- disse meio sem graça.

_ Obrigado- Raul agradeceu.

Depois que a primeira banda saiu, Carlos foi logo perguntar:

_ O que você acha?

_ A princípio Carlos, não sei dizer, mas a garota falou em uma suspeita e depois tentou despistar.

_ Você acha que ela pode estar certa?

_ Não sei, não posso tirar conclusões precipitadas, seria um tremendo amadorismo.

_ É mesmo. A propósito, aqui está a ficha com os nomes das bandas e de seus integrantes.

_ Por enquanto não irei precisar, guarde com você, primeiro quero tirar minhas próprias conclusões através de três simples perguntas: o que estavam fazendo antes de se apresentarem; a que horas exatamente; e se têm alguma suspeita.

_ Você é muito inteligente chefe.

_ Mande entrar a segunda banda e nada de bajulações.

_ Desculpe.

Carlos imediatamente saiu e a segunda banda entrou. Essa era composta por um vocalista chamado Saulo, um guitarrista chamado Igor e uma baterista chamada Lara. Sem demora, Raul foi logo perguntando:

_ O que vocês estavam fazendo antes de se apresentarem?

_ Eu e Lara estávamos ensaiando mais uma vez para não fazer feio no show, e o Saulo estava acertando os últimos preparativos- falou Igor.

_ Pode perguntar a Luana da primeira banda, eu estava com ela- disse Saulo.

_ Isso foi mais ou menos que horas?

_ Dez e meia- responderam.

_ Para terminar, vocês têm alguma suspeita?

_ Não chega a ser uma suspeita, mas há boatos por aí de que a banda Scorpions tinha inveja dos Tigers- falou Igor.

_ Então vocês suspeitam deles?

_ Como meu amigo disse, não chega a ser uma suspeita- reforçou Saulo.

_ Podem ir, obrigado.

Depois que essa banda saiu, Raul fez algumas anotações em um bloco de folhas e ordenou que a terceira banda entrasse. Essa era composta por dois vocalistas, Matheus e José, um baterista chamado Pedro e uma guitarrista chamada Larissa. Como sempre, sem demora, Raul foi objetivo:

_ O que estavam fazendo antes da apresentação?

_ Eu e o José estávamos repassando a música e ajudando os outros com os instrumentos- disse Matheus.

_ É mesmo- Larissa e Pedro confirmaram.

_ Isso foi a que horas exatamente?

_ Entre dez e vinte e dez e quarenta e cinco- responderam.

_ Terminando, vocês tem alguma suspeita?

_ Eu tenho- disse Larissa.

_ Não é nada não, ela é meio doida assim mesmo- interrompeu Pedro.

_ Por favor, contem tudo, não escondam nada pois isso pode transformá-los em suspeitos principais.

_ Já que você começou então termina boca grande- falou José.

_ Estavam dizendo por aí que a banda Scorpions queria ser a melhor do show, mas ficou em segundo plano pois os Tigers eram os melhores. Por isso, nós desconfiamos de que só pode ser eles.

_ Interessante. Obrigado a todos.

Depois que a terceira banda saiu, Carlos foi ao encontro de Raul. Nesse meio tempo Raul falou:

_ O que será que tem de tão especial nessa tal banda? Alguma coisa aí não se encaixa.

_ O que você pretende fazer agora?

_ Chame imediatamente a banda Scorpions.

_ Pode deixar.

A banda Scorpions logo chegou. A primeira vista Raul os associou com um bando de marginais que realmente poderiam estar envolvidos no crime. Mas...

_ O que vocês estavam fazendo antes de se apresentarem?

_ Eu e Rodolfo estávamos no camarim, e depois nos dirigimos ao camarim dos Tigers para cumprimentá-los. Foi quando nós vimos o vocalista morto- falou Guilherme.

Guilherme era o baterista da banda e Rodolfo o guitarrista.

_ Foram vocês que encontraram o defunto.

_ Pode crer- responderam.

_ E eu estava tomando um banho no vestiário- falou Ivan.

Ivan era o vocalista.

_ E isso tudo aconteceu a mais ou menos que horas?

_ Eu acho que foi entre dez e vinte e cinco e dez e quarenta.

_ E vocês por um acaso têm alguma suspeita?

_ Nós não- responderam.

_ Obrigado.

Depois que essa banda saiu, Carlos foi correndo atrás de Raul como um cachorro corre atrás de um osso.

_ E aí chefe, o que foi que você descobriu?

Raul então relatou a conversa que teve com os componentes da banda.

_ Então só pode ser mesmo eles.

_ Meu caro, as aparências enganem. Vá logo chamar a última banda.

_ Ih, surgiu um problema.

_ Mas o que pode ser agora.

_ É que a quinta banda sumiu.

_ Como assim sumiu?

_ Não sei, mas já estamos a sua procura.

_ Eu acho que não vai precisar, tenho a sensação de que o culpado ou os culpados estão reunidos aqui.

_ Como assim?

_ Na hora certa você saberá e antes que eu me esqueça, chame o que restou da outra banda, os Tigers.

_ Deixa comigo.

Imediatamente Carlos chamou os outros integrantes dos Tigers. Sobrara um baterista chamado Caio, e um guitarrista chamado Luís.

_ Vou fazer as mesmas perguntas que fiz aos outros. Sei que pode ser difícil, mas por favor me respondam com franqueza.

_ Faremos o que tiver de ser feito- disse Caio.

_ Ótimo. Então vamos começar: o que vocês estavam fazendo antes de se apresentarem?

_ Nós estávamos tomando banho no vestiário, e o André ficou no camarim- respondeu Luís.

_ Por um acaso vocês se encontraram com alguém no vestiário?

_ Sim, nós nos encontramos com um cara da banda Scorpions.

_ E isso foi mais ou menos a que horas?

_ Entre dez e vinte e dez e quarenta.

_ Vocês suspeitam da banda Scorpions?

_ Não - responderam.

_ E suspeitam de alguém? Uma pessoa inimiga por exemplo.

_ Não, todos pareciam gostar da gente- Caio respondeu.

_ Obrigado.


Capítulo 3


Depois que os Tigers saíram, Raul fez mais algumas anotações e comunicou a Carlos que iria ir pra casa, pois precisava descansar.

Quando Raul chegou em casa, ele não conseguiu pregar o olho, pois seu instinto de detetive o estimulava a resolver o caso. Ele foi para o seu pequeno escritório e pôs-se a estudar o caso minuciosamente. Ele colocou seu bloco de anotações perto de si e leu algumas de suas conclusões, e depois pegou um dossiê de todas as bandas e começou a lê-los. Descobriu a localização de cada pessoa na hora do crime, que a partir de suas conclusões era entre dez e vinte e dez e quarenta da noite. Ele fez uns esquemas de como se dava a disposição dos suspeitos na hora X, e com a experiência que tinha, logo chegou a uma conclusão. Parecia ser incrível. Ficou tão feliz que logo se encaminhou a delegacia, mas disse algo assim: “O crime é um hábito”.


Capítulo 4


Logo Raul chegou a delegacia, e por incrível que pareça, encontrou as bandas todas reunidas na sala de interrogatórios.

_ Ainda bem que vocês estão aqui. Senhores, já sei quem foi o assassino.

Todos olharam Raul surpresos, principalmente Carlos e o delgado.

_ Então desembuche logo- reprimiu o delegado.

_ Senhores, para começar, eu quero falar sobre umas conclusões bem simples que logo encontrei. O assassinato aconteceu por volta de dez e vinte e dez e quarenta. Todos os interrogados tiveram um álibi, mas conclui que alguém estava mentindo, mas quem?; foi aí que comecei a ler os dossiês das bandas e vi que eles forneciam informações valiosas das quais eu consegui chegar a um culpado. Primeiro, fornecia as posições de cada pessoa na hora do crime. Segundo, analisei cada possibilidade. Terceiro cheguei a uma conclusão: todos, com exceção dos Tigers e dos Scorpions, participaram do crime.

Todos se entreolharam assustados e Larissa começou a desabar em lágrimas.

_ Pode dizer a verdade minha querida.

_ Eu confesso, todos nós participamos do crime. Queríamos apenas ser reconhecidos como bandas, mas os Tigers eram sempre o centro das atenções. Cada um ficou responsável por uma parte no crime. Foi a partir daí que bolamos a idéia de jogar a culpa pra cima dos Scorpions, pois eles eram muito idiotas. Mas eu estou muito arrependida.

_ Isso é mesmo verdade?- o delegado perguntou.

Ninguém teve coragem de negar.

_ Como você chegou a essa conclusão?

_ Meu caro Carlos, “O crime é um hábito” provocado por emoções.

Logo após, Raul descobriu que a banda que havia sumido tinha sido ameaçada de morte pelos outros e que por isso fugiram. E ainda foram obrigados a levar a arma do crime.

_ Vivendo e aprendendo, essa é a vida- disse Raul.


Autor: Lucas Martins Rocha